Realmente o Audax mostra o nível de amizade e comprometimento dos amigos
do Pedal...
Eu planejei a semana toda, tudo que eu ia lembrando anotava na Palm, pra
não esquecer de nada e eu teria muito espaço pra tralhas, dessa vez eu
iria com carro de Apoio. Levei no carro câmeras, remendos, ferramentas,
isopor com gelo, Malto, remédios, 5 camisas (Podia chover), roupão,
toalhas, bermudas, meias, casaco, pilhas, GPS, frutas desidratadas,
sanduiches... Comigo na bike só duas garrafinhas de 750 ml, ferramentas,
1 câmera e kit de remendos e o MP3. Nem Camelback levei, eu queria ficar
o mais leve possível.
Dia 21 foi aniversário de namoro, então levei a Dona Patroa pra jantar
um dia antes, comemoramos nosso dia mesmo foi na estrada e ela me deu
muito apoio, em certo momento fiquei até procupado, quando ela
estacionava sozinha perto de Samambaia pra torcer por mim.
Até a última hora eu ainda não tinha decidido se ia de Speed (Mais
velocidade) ou de Mountain Bike (Mais conforto). As duas estavam
revisadas, prontinhas pro desafio. No último momento instalei uma
catraca de Mountain Bike na Speed e me decidi por ela.
Cheguei em casa 20h e queria dormir até as 23h. Quem disse que eu
consegui? Jantei uma macarronada e cheguei no Pier 23h40 já cansado e
com sono, alonguei, cumprimentei os outros malucos que iam participar e
parti.
Eu estava parecendo uma árvore de Natal. Dois faróis no capacete
+ dois na Bike, uma lanterna vermelha no capacete, uma amarela nas
costas e uma vermelha na bike e 2 luzes neon azuis nas rodas.
Logo na saída desci da bike pra empurrar por conta do cascalho,
fiquei com medo de estourar um pneu. Na saída fiquei em último, comecei
a pedalar, pedalar e me juntei com alguns amigos, mas estavam lentos.
Na minha cabeça eu tinha que me adiantar para sofrer por menos tempo, então
comecei a pedalar forte. Fui ultrapassando muita gente e
surpreendentemente minhas pernas estavam respondendo muito bem e fui
mandando bala.
Na passagem pelo Pier novamente eu já estava pedalando
praticamente sozinho, só com alguns ciclistas na minha frente, quando
grudei na cola de outro amigo com speed e peguei um vácuo por alguns
quilômetros, isso descansou meu corpo pra aguentar o subidão do Nucleo
Bandeirante.
Em todos os momentos fui muito bem escoltado pelo pessoal de apoio,
principalmente o Ronaldo, eu percebia que ele me olhava e devia estar
pensando que eu não deveria acelerar tanto.
Cheguei no primeiro PC em
menos de 2h com quase 30km/h de média, não estava acreditando, mas eu
estava me sentindo MUITO BEM.
No Audax 200 eu não descansei no primeiro
PC e foi um erro.
Dessa vez, mesmo com energia sobrando parei, comi
frutas, água, descansei um pouco, recebi massagem nas pernas da Dona
Patroa, até que a Paquinha falou pra eu ir embora que estava muito
frio. Troquei a camisa, coloquei um casaco e parti.
Logo depois acabaram
os postes que iluminavam as pistas e o mundo se tornou um BREU.
Eu até
que estava tranquilo por conta dos 4 faróis.
Me juntei ao Castelli e
pedalamos juntos um bom tempo, um pipoca nos alcançou porque estava
quase no escuro e queria usar nossa luz. Depois de alguns quilômetros
alcançamos mais três ciclistas que também estavam com dificuldades por
falta de luz. Formamos um pelotão com 6 pessoas e na subida eu ficava
pra trás, mas na descida e reta ultrapassava fácil todo mundo...
Subi a
Schincariol com certa dificuldade, mas os caras que estavam com a gente
batiam papo numa boa...
Eu já estava botando os bofes pra fora, mas
consegui, no Audax 200 eu desci da bike nesse trecho para empurrar.
Nesse momento as minhas costas estava muito doloridas por conta da
posição na speed. Pedalar na speed é ótimo pela rapidez, mas é
estressante, não se pode vacilar senão vai pro chão e as trepidações são
todas repassadas para os braços e costas.
Eu já estava sentindo isso.
Na descida que antecedia a última subida antes do 2º PC eu falei pro
Castelli que queria parar por 2 minutos, ele disse que estávamos
chegando, faltavam uns 5 km.
Continuei, mas dessa vez todo mundo desceu
na minha frente e eu desci cauteloso. Estava com um mau pressentimento.
Saí do acostamento e fui para a pista para descer com mais segurança,
estava a uns 50km/h, quando encontro um buraco muito grande. Não caí por
obra de Deus. Soltei um grito na hora e parei para verificar se a roda
tinha empenado ou o pneu estourado. Nada aconteceu, pensei que tinha
sido um milagre.
O pessoal já tinha seguido em frente e fiquei sozinho, nesse momento
aparece o Ronaldo novamente, nosso anjo da guarda. Me pergunta se estava
tudo bem. Eu disse que tinha sido um buraco, mas que não tinha
acontecido nada e ele seguiu em frente.
Eu tinha acabado de atravessar
um rio, estava de casaco, todo suado por dentro, mas aquecido e sabia
que o frio estava forte, do meu rosto saía muita fumaça por conta da
condensação do meu suor.
Continuei a pedalar quando no início da subida estava o pipoca do
nosso pelotão se contorcendo em câimbras. Parei pra ajudar e ele disse
que estava bem que eu podia seguir. Mas ele estava sem luz, então
emprestei uma de minhas lanternas e quando vi meu pneu estava furado.
Ele seguiu em frente e eu tentei trocar. Virei a bike de ponta cabeça.
não sem antes retirar o Cateye e os dois faróis. Nessas horas que a
gente percebe como essas ferramentas compactas são uma porcaria.
As
pequenas espátulas entortavam e não conseguia tirar o pneu de jeito
nenhum.
Algumas pessoas me ultrapassaram e eu disse que estava tudo bem.
Logo depois outro anjo da guarda parou pra me ajudar, o Rogério, aquele
que carrega um Home Theater nas costas. Eu iluminava e ele tentava tirar
o pneu. Com muita dificuldade conseguiu e trocamos a câmera e o bico não
aparecia pra fora, quando vimos era incompatível. Tanta dificuldade pra
isso, antes eu tivesse remendado a outra.
Eu pedi que ele seguisse que
eu iria pé até o PC, faltavam só 4 km. Ele insistiu que ia comigo, mas
não deixei.
O Rogério terminou o Audax 200 exatamente junto comigo, pedalamos os
últimos 40km juntos e ele me ajudou muito com meu pé que dava choques
muito doloridos; É aquele cara que gosta de ajudar todo mundo. Vai pro
céu, com certeza.
Comecei a empurrar a bike naquela escuridão e a pista vazia.
Fui
sendo ultrapassado por muita gente, todos perguntando se eu precisava de
ajuda, bem espírito Audax mesmo.
Logo depois minha espôsa apareceu, toda
preocupada porque eu não tinha chegado ainda ao PC2. Eu disse pra ela ir
embora que não podia iluminar meu caminho e nem me ajudar.
Ela foi, toda
preocupada, mas em 10 minutos apareceu o RONALDO e ficou pacientemente
atrás de mim até que cheguei no PC2.
Essas coisas emocionam.
Era dia do
aniversário do filho dele e ele ali, me ajudando.
Confesso que nesses 10
minutos que fiquei caminhando, com todas aquelas luzinhas piscando me
sentia como uma isca de tubarão... Santo RONALDO.
Cheguei no PC2 e ainda tinha gente chegando.
Eu tentei tirar o pneu e
não consegui. Um amigo tentou e nada. Estava muito duro. Remendei a
câmera e na hora de encher minha bomba se desmantelou. O Farid me
emprestou uma bomba enorme e não enchia a câmera de jeito nenhum. Eu já
estava desanimado.
Quando coloquei a bike no carro alguém chegou e
disse: Porque você não usou 2 colheres como espátula??? Como não pensei
nisso antes???
Desisti com pouco mais de 100km pedalados, o dia já amanhecendo, mas
a experiência de amizade e comprometimento valeu.
Me emociona ao lembrar
a força do pessoal do apoio e de algumas coisas que presenciei.
Me lembro do Leandro querendo desistir porque estava sem lanterna...
Ganhou uma emprestada...
Me lembro de outro cara que ia pegar um avião
as 19h, já tinha desistido, era de SP, mas mesmo assim emprestou sua
roda para outro que tinha quebrado uns 20 raios...
E pelo jeitão da roda
devia ser daquelas que custam uma fortuna...
E eles nem se conheciam...
Isso é Audax.
Isso é Rebas.
Isso é PNDF.
E deveria ser a atitude de
todos os seres humanos.
Até + tarde na festa, pessoal.
Abração,
Sérgio