Caros amigos audaxiosos, organizadores e voluntários.
Hoje, animo-me a escrever sobre minha primeira participação em um evento como este, do qual não sabia da sua existência e nem imaginava o que seria.
Tudo começou num fim de semana quando encontrei um pessoal pedalando pelo Eixão Norte, durante um domingo do mês de fevereiro, com numeração, capacete e tudo equipado e coisa e tal. Era o tal de desafio DEWAGRAO. Obtive breves informações sobre o que estava rolando para não atrapalhar os participantes e interessei-me em participar de um evento desta natureza. Fiquei sabendo do site do PNDF / Rebas do Cerrado e fui atrás das informações necessárias. Na busca das informações sobre o PNDF em seu site, no seu calendário de eventos, tomei conhecimento do próximo evento que iria ocorrer em Brasília, que seria o AUDAX RANDONNÉE BRASÍLIA 200 Km., já no dia 18 Abr.
Afirmo que fiquei até um certo momento temeroso sobre o assunto. Imaginava que aquilo não era para mim.
Bom, comecei os preparativos psicológicos. Tracei uma estratégia até chegar o dia do evento.
Enfrentei muitas dificuldades. Muitas delas vindas de pessoas próximas. Todos achavam que eu estava louco, maluco ou não regulava bem dos miolos. Eram unânimes e diziam que não iria nem chegar nos 12 Km iniciais e retornaria para casa de cabeça baixa, derrotado. Eles estavam cada vez mais estimulando-me a prosseguir no meu objetivo. Heheheeeeeee.....
Busquei muitas informações com o pessoal da Unibike da CLN 113, com o seu Wagner, com um amigo conhecido de última hora o Sr. Wlisses (172) e com todos os relatos e fotos de anos anteriores disponibilizadas no site do PNDF. Fui incansável na busca de informações sobre este desafio. Estava realmente decidido.
Bom, prosseguindo no meu planejamento, verifiquei qual a melhor bike a ser utilizada, coloquei pneus slicks, regulei as marchas, selim, capacete, luzes exigidas pela organização, colete refletivo e comecei a dar umas pedaladas.
Sabendo da minha limitada preparação física e da inexperiência em pedalar por longas distâncias e muito menos no dia-a-dia, seria um desafio e tanto. Minha maior preocupação era o frio da madrugada e qualquer um dos meus joelhos ainda intactos. Enfim, estava animado e certo de estar fazendo algo em prol de mim mesmo. Ser um audaxioso. Afinal, uma aventura como nos meus tempos de guri no Paraná (onde nasci) e Santa Catarina, por onde passei boa parte da minha vida, seria algo como voltar ao passado. Uma aventura e tanto. Um passeio por Brasília.
Fiz minha inscrição no último dia, ainda com muitas dúvidas. Tinha agora, apenas oito dias para a prova de resistência. Busquei uma última informação e tirei a última dúvida. Encontrei-as dentro de mim. Tracei o objetivo maior. Tracei objetivos intermediários. Sabendo das minhas limitações, segui em frente.
Chegou o grande dia. Moro na Asa Norte e próximo do Extra. Levantei-me da cama, arrumei-me silenciosamente. Naquele momento, queria ficar só. Alimentei-me bem, peguei minha bike e dirigi-me até o Extra, sentindo o frio da madrugada.
Agora é o momento do vamos ver o que vai acontecer. Estava pronto para o que desse e viesse pela frente.
Chegando ao Extra, passei pela vistoria e recebendo o cartão de rota e mais-mais coisas, fiquei um pouco isolado, desorientado e desnorteado com tudo o que estava acontecendo. Não estava no meu mundo. Eu ouvia minha própria respiração ofegante, diante de tudo aquilo que eu estava fazendo. Era loucura mesmo?
Decidi fazer uns alongamentos e com isto consegui puxar um papo com pessoal ao redor, que eram de Goiânia. Fiquei animado, afinal, estava concentrado demais para a prova e estava sentindo-me um pouco isolado. Aos poucos fui quebrando esse gelo e, antes da largada já tinha falado com muita gente e trocado umas trocentas informações sobre o trajeto e as formas de como conduzir a bike e cuidados com o trânsito, etc, etc, etc e tais coisas de bikers...
Foi dada a largada. Muita gente gritando Bora! Bora!, uns apitando e outros dizendo, Cuidado! Vamo Borá! e assim por diante... Foi algo mágico, inigualável. Como descrever aquele momento? Agora não tinha como voltar. Era continuar em frente cada vez mais pedalando e assim, pedalando fui-me. Alguns pediram-me passagem e outros me deram passagem. Aglutinei-me em um pelotão, mas não durou muito tempo e o pessoal se dispersou e fiquei para trás.
Com poucos minutos de pedal, já chegando na entrada do Lago Norte, vi-me entre os últimos, senão o último. Mas, vamo bora! Não é corrida, é prova de superação... Bora Bike.
Passado o 1º PR – Clube do Congresso estava muito bem. Aconteceu o meu primeiro contratempo. A corrente escapou durante uma troca de marcha, o que me fez prestar mais atenção. Sujei minhas mãos de graxa. Nada mal... um biker Goiânia, sugeriu ajuda e disse-lhe que não havia necessidade em vista do problema. Agradeci-lhe. Obrigado amigo, siga em frente.
Em seguida, descida do Varjão. Lasquei a 21ª marcha da bike, exigindo tudo dela e de mim também... legal... descida a mil... uau...vento no rosto e comecei a lamentar notando a subida em seguida.
Tudo bem, nada mal... Começou a subida e lá se foi a minha alegria... Começou tudo a ficar mais difícil... Lá pelas tantas pedaladas, subindo, subindo, cada vez mais subindo... e não parava mais de subir, descobri um momento mágico em tudo aquilo que estava fazendo. Não se escutava barulho algum à minha volta. Silêncio total, só a minha respiração. Ainda pedalando, disse à minha bike: “Olha só nós aqui. Eu, você (a bike) e Deus – Vamo borá, nada de ruim irá nos acontecer” – que momento sublime. Para acordar daquele silencio, passa por mim o carro da fiscalização buzinando, saudando-me. Levei um baita susto.
Seguindo mais adiante, chego ao PC1. Eram 08:45hs. Consegui meu primeiro objetivo dentre aqueles que eu havia traçado inicialmente. Fiquei até as 09:00hs. Lasquei de cara duas bananas e muito líquido. Larguei novamente, de volta à estrada, sentindo-me o último, segui minha sina. “Eu, minha bike e Deus” – maravilha.
Pedalando cada vez mais, de metro em metro, galgando quilômetro após quilômetro, cheguei no PR2 - Shopping Gilberto Salomão.
Já estava sentindo algumas dores na coxa da perna direita que dava sinais de que era uma possível cãibra.
Com alguns minutos de parada, aproveitei e ingeri água, consumi uma banana que havia guardado desde o PC1 e barra de cereal, além de um energético. A dor na coxa diminuiu e dei prosseguimento em minha pedalada.
Agora, passando a ponte das Garças e seguindo pela L4, sentido Sul-Norte em direção ao PR3 – Palácio do Alvorada começou aquilo que eu já estava temendo desde o início quando me inscrevi para este Audax.
Mas persistindo na minha luta, continuei pedalando, ouvindo minhas dores, agora no joelho da perna esquerda. Parecia que havia um pino de metal querendo sair pela perna a fora. Até este momento, não sabia que estava sendo acompanhado de perto pelo pessoal de apoio da organização.
Eu era o último.
Que felicidade. Bom, quer dizer, muito mal. Prosseguindo em minha pedalada e sentindo muitas dores no joelho esquerdo, senti que o momento era o de desistir, caso a dor não diminuísse até a minha saída do PR3 – Palácio do Alvorada. Ao chegar no PR3 e após verificar as minhas condições físicas, comuniquei ao pessoal da organização a minha decisão de parar definitivamente, desistindo do restante do desafio.
Fui ainda, incentivado a permanecer na prova. Sabendo inicialmente das minhas limitações, optei pela desistência.
Minha bike foi colocada na Van que estava imediatamente atrás de mim durante a pedalada e rumei em direção ao PC2, de onde, segui para minha casa.
Antes de mais nada, parar e evitar um mal para si mesmo era necessário. Foi um momento de grande expectativa. Foi um momento que requereu um estudo da situação física, muita cautela, serenidade, disciplina e a tomada da decisão por mais dolorosa que fosse, foi acertada.
Diante de tudo isto, quero dizer que meu primeiro objetivo e maior de todos, foi atingido: participar do AUDAX RANDONNÉE BRASÍLIA 200 Km.
Nem imaginava o que estaria eu fazendo ali junto a todos aqueles bikers. Superei minhas expectativas permanecendo na fé de que tudo iria “Dar Certo”. “E tudo deu certo”.
Os demais objetivos seriam atingidos à medida dos acontecimentos. Meu segundo objetivo: era atingir os 50 Km, o qual foi obtido com êxito. Meu terceiro objetivo: era atingir os 100 Km. Não sendo possível em vista do problema do joelho, mas consegui chegar próximo dos 70 Km, sempre pedalando. Após os 100 Km e à medida do possível, das condições físicas e cuidadosamente analisados, prosseguiria no desafio.
Assim, sucessivamente, os outros objetivos seriam atingidos e quem sabe, poderia ser brevetado. Mesmo assim, sinto-me feliz.
Senhores e senhoras, da Organização, voluntários e bikers. Amigos e amigas de pedal, sinto-me honrado por ter participado pela primeira vez em minha vida de uma prova de longa distância e de grande resistência.
Arre! Às vezes, sonho em que deveria ter persistido no desafio. Sinto vontade de refazer o trecho novamente. Foi delicioso, apesar de árduo.
Estou feliz e prometendo voltar.
Vamo Borá, pessoal! Pedalaí, gente!
Grato pela atenção.
Estou disposto a ser um voluntário para o AUDAX RANDONNÉE BRASÍLIA 300 Km.
Edson Luiz Foletto participou do Audax Randonnée Brasília 200 Km com o número 204.