HENRIQUE CALDAS É O 5º BRASILEIRO A COMPLETAR OS 1.200 Km
Kayo Oliveira [Paris-Brest-Paris 1998/99],
Manoel Rama Terra [Paris-Brest-Paris 2003],
Luiz Maganini Faccin [Paris-Brest-Paris 2007],
Erich Brack [Paris-Brest-Paris 2007], e
Henrique Caldas [Canada Rocky Mountains 1.200 Km 2008].
O sonho tornou-se realidade muito antes do que esperávamos.
Quando o Audax veio para Brasília, em 2007, tínhamos a remota esperança de um dia ver um brasiliense concluindo a série completa desse evento, passando pelos brevets de 200 Km, 300 Km, 400 Km, 600 Km e finalmente os 1.200 Km.
Em 2007, tivemos a tentativa de três bravos brasilienses, o Juan José Lopes Mendes, a Adriana de Campos Cerqueira e o Ricardo de Araújo Pereira, no Paris-Brest-Paris, mas sem obter o sucesso de completá-lo dentro do tempo estipulado pelo Rondonneurs Mondiaux.
E, em 2008 tivemos a agradável surpresa de ver nosso amigo Henrique Caldas, sem grandes alardes, completar o difícil Canada Rocky Montains, entrando para a história do Audax como sendo o 5º brasileiro e o 1º brasiliense a obter esse valoroso feito.
O Audax Brasília parabeniza Henrique Caldas, fruto da terra, e enaltece seus feitos de superação, dando a Brasília um merecido lugar de destaque no âmbito do Audax.
Permita, caro Henrique, que o Audax Brasília, compartilhe com você o júbilo de tão expressiva vitória.
Direção Audax Brasília
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Vejam abaixo o depoimento do Henrique Caldas sobre sua participação no Canada Rocky Mountains 1.200 Km, em 2008.
Senhores Audaxiosos, principalmente os mais malucos chegados numa longa distancia, estou em Vancouver e ontem tive o privilegio de ser o primeiro brasiliense a fechar uma prova de 1200 km dentro das 90 horas, alem de ser o primeiro a fazer essa num lugar espetacular como o Canada
Rocky Mountains 1200 2008
Tudo teve que ser bem planejado pra ser perfeito, pra em caso de desistência, ela não ter sido motivada por falta de planejamento ou por logística errada, então obviamente chequei tudo umas 5 vezes.
Antes da largada
Tentar dormir foi inútil, a excitação pré prova simplesmente não deixa eu tirar um cochilo que seria importante, finalmente as 9 da noite começo a me vestir pra largada as 10. Como foi tudo checado muitas vezes, nada estava faltando.... quer dizer, cade minha meia e minha bandana? Menos mal que tinha meias a venda la (la se vão 10 dólares) e sai sem bandana mesmo.
Largada Kamloops – Clearwater (km 123)
Finalmente as 10 da noite chegou a hora de direcionar toda aquela adrenalina pra mover a bike, 105 ciclistas partindo, muita gente aplaudindo na saída da cidade e vários pelotões se formando, o que foi muito bom pela iluminação conjunta e pra pegar um pouco de vácuo já que toda economia de energia é bem vinda.
Já nos primeiros 30 km, uma das minhas garrafas caiu da bike, ou seja, já tive que readequar minha estrategia de hidratação de 3,2 pra 2,4 litros/100 km. O clima tava bom, ate C1 - Clearwater (Control 1) a temperatura ficou na casa dos 12º.
Finalmente depois de pouco mais de 4 horas e 123 km chegamos na primeira parada as 2:35 da manha. Muita comida disponível, hora de esvaziar a bexiga também, mas tudo muito rápido pra não perder tempo e esfriar a musculatura, depois de 16 minutos parado iniciei o segundo trecho.
Clearwater-Blue River (km 229)
Já sai de Clearwater um pouco mais agasalhado, pois esse trecho seria o mais frio do primeiro dia, além disso a partir desse ponto começaram as subidas, ainda muita gente agrupada o que facilita virar a noite pedalando, pois vamos batendo papo sem nem lembrar que ainda tínhamos mais de 1000 km pela frente. Apesar de ainda ser uma área de baixa altitude, seguíamos entre montanhas, o que nos brindava com um vento gelado. 4:30 da manha começou a amanhecer, melhorando a visibilidade, mas também é o horário mais frio que nesse dia chegou a 3º, mas manteve a mair parte do tempo em torno de 5º. Pela manha, mais precisamente entre os km 180 e 260, algo me fazia sentir desconfortável, parecia cansaço, naquele momento comecei a pensar que poderia não conseguir, mas ao mesmo tempo o lado racional mostrava que eu não estava cansado, estava adiantado e cheguei no C2 1:05 antes do previsto as 8 da manha, ou seja, se realmente estivesse cansado ainda tinha um tempinho extra pra descansar.
Blue River – Valemount (km 319)
Mantendo o ritmo, sempre baixando os tempos previstos, me livrei daquela tentativa do subconsciente de minar minhas energias. Ao mesmo tempo as paisagens espetaculares desviavam a atenção pro fato que estávamos sempre pedalando ladeira acima. Nesse trecho já apareceu o primeiro urso, ta certo que era um filhote, mas é algo que não se vê no Brasil. Enquanto isso iam alternando as companias da pedalada, uma hora foi um alemão, depois um iraniano que morava na florida, depois um jovem casal de Vancouver sendo que era o primeiro 1200 dela e o segundo dele, um Australiano. Isso tudo ajuda a não pensar no que tínhamos pela frente, já que eram tantas culturas diferentes então não faltava assunto..... enquanto isso... ladeira acima. Cheguei no C3 as 12:27, aproveitei pra almoçar e é claro, abastecer as garrafas.
Valemount – Jasper (km 443)
Minha primeira parada pra um cochilo tava programado pra Beauty Creek (530 km) mas resolvi parar mais cedo em Jasper (era meu plano B previamente estudado) pois a estrutura la seria melhor pra um cochilo. Pra se chegar em Jasper já tem que subir alguns morros, seguindo por dentro do parque nacional e como sempre, por paisagens deslumbrantes.. O dia segue muito quente, mas pela altitude, assim que o sol começa a se por, a temperatura despenca. Cheguei em Jasper já com um frio razoável depois de completar os 447 iniciais as 7:53 da noite... quer dizer... da tarde, pois anoitece uma 9:30 por aqui. Nem passa pela cabeça que ainda tenho quase 800 pela frente, fica só a satisfação de ter dado o primeiro passo sem nenhum problema, fechando o primeiro dia apos 21:53..
Jasper – Beauty Creek (km 530)
Pude dormir por 3:30, mas acordei com muita dor nos ombro, enquanto levantava, tomava café da manha ela foi passando e as 2:15 da manha iniciei a subida ate Beauty Creek. De novo durante o amanhecer, é a hora que o frio ataca, e o frio era meu maior medo, mas apesar de estar apenas 1º, não tive nenhum tipo de problema. Algumas subidas se você parar pra pensar um pouco acaba chorando, então o melhor é definitivamente não pensar, apenas ir adiante ate chegar nos 1500 m de altitude de Beauty Creek. Aproveito pra aumentar meu nível cultural, mas percebo que o inglês é uma língua muito pobre de vocabulário, pois só se ouvia as palavras climbing e uphill.
Beauty Creek – Lake Louise (km 677)
Esse é definitivamente o trecho mais esperado da prova, pois envolve a travessia das 2 maiores montanhas da prova, com 2035 e 2065 metros, saindo do C5, tem uma longa reta, mas quando aparece a subida... puti... é impressionante a inclinação daquilo, consigo manter uma velocidade incrível entre 6 e 8 km/h, mas sei que o importante é não ficar pensando que se tata de uma subida de 40 km de extensão, mas felizmente, essa parte ingrime é só nos primeiros 8 km, depois fica uma subida dentro de padrões aceitáveis. Finalmente aparece uma ladeira abaixo, depois de 570 km, mas não é muito confortante saber que baixamos pra 1400 m e la vem outra montanha pra ir aos 2065 metros. Essa subida é o contrario, começa de maneira aceitável, onde da pra manter entre 13 a 15 km/h, mas a parte final, aquela chega a bater desespero quando lembro, a temperatura voltou a bater a casa dos 27º e acabei tendo que encher as garrafas num rio, essa agua já vem naturalmente gelada. Chegando no topo da montanha, resolvo verificar o estado da minha pele no meu ponto de ligação com a bike (conhecido como bunda) pois não estava mais achando uma posição confortável pra sentar. Assim que meu dedo toca, dou um berro de dor, tinha uma bolha enorme, já estourada, e o negocio tava em carne viva, alem de sangrando um pouco. Tive que seguir em pé ate o C6, por mais ou menos 37 km, o que me fez perder muito tempo, deixei de aproveitar a descida e ainda ganhei uma linda dor nos 2 joelhos, que por sinal a partir daí, ela foi minha fiel companheira ate o final da prova. Finalmente as 5:25 da tarde chego em Lake Louise. Esse controle é atípico, pois dali sai pro único trecho que é fora da volta, vai ate castle junction, e passa de novo por Lake Louise pra ir a Golden, isso me fez ter uma boa noção do tempo que perdi, pois alguns que estavam subindo os morros comigo, estavam la, porem já haviam ido a castle junction e pararam la pra abastecer, ou seja, eu estava 54 km pra trás Única solução pra isso foi feita – parada o mais rápido possível, lavei bem o ponto de ligação (a tal da bunda) o que rendeu alguns urros de dor, passei uma pomada anti bactéria e fiz uma boa cobertura com micropore, alem de um saco plastico no selim, pra evitar a fricção, comi rápido e iniciei a ida pra Castle Junction.
Lake Louise – Castle Junction (km 705)
Finalmente pude voltar a sentar, mas agora só seguia acompanhado da minha amiga (dor no joelho) eu ate conversava com ela de vez em quando, nesse trajeto curto conheci o Joseph, um Alemão-Americano-Frances – explico – nasceu na Alemanha, mora nos estados unidos desde 1991 e é casado com uma francesa e só se comunica com ela em francês, da pra imaginar o sotaque. Ele foi a pessoa com quem mais conversei, pois do km 680 ate o final fizemos juntos, chegamos em Castle Junction as 7:28 e a parada foi praticamente um “stop and go” tipico na formula 1.
Castle Junction – Golden (km 815)
Decidimos não parar em Lake Louise de novo pra abastecer, assim aproveitaríamos ao máximo a luz do dia, e porque teoricamente esse era um trajeto fácil ate Golden, já que era quase todo ladeira abaixo, assim recuperaria parte do tempo. Logo na primeira descida pego em cheio um buraco que rasgou minha camara traseira, por sorte o pneu não foi danificado, pois lembra que eu chequei tudo um monte de vezes antes da prova? O pneu reserva também foi esquecido. Essa troca da camara acabou custando quase 30 minutos devido a dificuldade em manusear a bicicleta com todo peso que estávamos carregando e a total escuridão Daí por diante, foi um dos trechos mais tensos, pois minha pilha estava fraca (a reserva tava me esperando em Golden) e a pista estava cheia de buracos, pequenos suficiente pra não atrapalhar os carros, porem grandes o suficiente pra arrebentar uma roda de bicicleta. Foi um longo trecho descendo na casa dos 20 km/h (tinha previsto descer ente 60 e 70), de vez em quando acertando outros buracos o que me fez chegar exausto em Golden, alem de muito atrasado, cheguei la as 2 da manha. Solução de novo – reduzir as horas de sono. Depois de jantar, tomar banho, trocar o curativo, dormi por 1:30. Quando acordei... não acreditava que sentia tanta dor, precisei de alguns minutos deitado ainda no ginásio (dormíamos em tapetes emborrachados) pra aos poucos ir mexendo alguns músculos devagar e depois finalmente levantar. Não preciso mencionar minha amiga do joelho.... nesse momento já estávamos tão intinos que acho que não preciso ficar mencionando sua constante compania.
Golden – Revelstoke (km 965)
O inicio da pedalada parece uma tortura, a perna não obedece, o joelho dói e eu sai do C8 parecendo o Guga jogando, cada giro no pedal um grito tipico de tenista dando raquetada, demorou uns 10 minutos pra eu conseguir botar uma cadencia normal, e só então acho que minha amiga percebeu que eu era parceiro dela, e voltou a me acompanhar, desistiu de tentar me matar.
Golden fica a 750 metros e tínhamos pela frente 2 montanhas, a primeira de 1100, descendo a 750 de novo, e subindo a 1330, claro que depois de 1000 km rodados, qualquer subida pode ser um problema, mas essas eram realmente ingrimes, não sei porque, mas me senti muito bem nelas e subi passando muita gente, ainda vinha na cabeça um trecho de uma musica do Élvis “it isn't only a hill, any longer, you gave me a mountain, this time” foi até inspirador, pois eu queria mudar o trecho que fala “you gave me a mountain i will never climb”.
Depois dessa, foi uma boa descida ate Revelstoke que fica apenas 500 metros acima do nível do mar, agora também na compania de um casal japonês, sendo que ela não falava inglês, chegamos la as 2:51 da tarde.
Revelstoke – Enderby (km 1077)
Esse foi um trecho especialmente torturante pra mim, pois os 40 km finais eu tava muito fraco, já que tinha parado de tomar gatorade desde o km 600, pois a acidez queimou todo o meu lábio, alem da comida ser muito do padrão americano (gordura e sal), então percebi que não tava me alimentando direito principalmente pelo medo de alguma comida me fazer mal e eu jogar a prova pela privada (literalmente), mas chegou no ponto que ou eu comia ou não completava, então depois de passar por maus momentos... quer dizer, péssimos, eu tava tonto, tive que ficar alguns minutos deitado no asfalto, e literalmente fui me arrastando ate Enderby, não tenho nem muito o que falar desse trecho, pois não lembro de nada, apenas de tentar tomar Power Gel e não sentir nenhum efeito, acho que não senti nem mais a presença da minha amiga no joelho, de tão grogue que eu tava. A receita pra reverter isso eu já sabia, então cheguei em Enderby (acho que abduzido por uns ETs protetores de ciclistas) comi um pouco, dormi 15 minutos, depois comi muito, mas muito mesmo, tudo que tinha direito, depois mais um cochilo de 15 minutos e pronto, la estava eu de volta a prova, inteirão, o pessoal do Controle ficou super preocupado quando viu meu estado chegando la, mas depois da terapia intensiva virei um novo homem, sem abandonar minha amiga. Só pra constar, chegamos as 10:45 da noite la e tenho que agradecer ao Joseph, pois ele ficou comigo e viu que sozinho eu não chegaria.
Enderby – Salmon Arm (1100 km)
Já na saída, encaramos uma subida razoável de 4 km, claro que não se compara as montanhas, mas depois de tanto esforço, ate uma subida dessas que se compara a subida dos condomínios depois da JK, fica difícil Mas eu tava inteiro e até que foi tranqüilo, além disso era um trecho curto entre 2 controles, chegamos em Salmon Arm as 2:05 da manha pra mais um reforço na alimentação. Pensei em continuar, pois tava bem e só faltavam 110 km, mas foi a vez do Joseph ficar sonolento e em solidariedade, fiquei por la pras ultimas 2 horas de sono.
Salmon Arm - Kamloops (chegada 1211,3 km)
Um belo café reforçado e saímos com os primeiros raios de sol. Agora estava tudo a nosso favor, pois tínhamos tempo de sobra e a chuva não tava forte. Faltavam apenas 4 subidas e descidas estilo 7 curvas e depois tudo plano nos 50 km finais. O inicio do pedal de novo eu mostrei meu talento no tênis, pois pelo menos na parte dos gritos eu me sairia bem no tênis Pude me certificar que minha amiga ainda tava la, e como tinha dormido, ela descansou bem e tava mais forte que nunca. Tivemos a oportunidade de pedalar nesse trecho com um casal de Boston, o cara é simplesmente Ed Kross, fazendo seu 12º 1200, só de Boston Montreal Boston, foram 5, e o primeiro foi o recorde da prova que permaneceu por vários anos, sua mulher Jéssica Eckhardt estava na segunda participação, foi bom pruma troca de experiencia e foi gostoso ver no visual, a gente se afastando e deixando eles pra trás Apenas no visual, pois como eles eram do grupo das 84 horas, na verdade eles tavam 6 horas na frente... hehehe.
O objetivo era fechar ate 1 da tarde, o que daria 87 horas, mas dava pra ser melhor, então aceleramos pra baixar o tempo, ate que finalmente, após exatamente 85 horas e 35 minutos, foi grande a emoção de ver as pessoas aplaudindo e finalmente um sonho realizado. Agora é relaxar um pouco porque em agosto tem Porto Alegre e Campinas, alguem quer me acompanhar?
Henrique
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